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Ser o que se é

O meu único arrependimento na vida é não ser outra pessoa, disse Woody Allen. Numa época em que a auto-adoração e o narcisismo imperam, não é socialmente aceitável ouvir alguém que confessa o seu desagrado por não ser diferente daquilo que é, por não ser outra pessoa. A frase "ama-te a ti mesmo" não é uma mera banalidade à qual foi concedido o estatuto de mandamento secular. "Ama-te a ti mesmo" é um dos sinais identitários que melhor caracterizam os nossos tempos. No entanto, creio que o lamento de Woody Allen é importante, pois toca num ponto central da psicologia humana- a relação tempestuosa do indivíduo consigo mesmo.  Por muito resistente que pareça o verniz que cobre e encobre os comportamentos quotidianos da era contemporânea, o certo é que continua a ser tremendamente difícil aceitar ser o que se é. Não foi à toa que Albert Camus escreveu que "o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é". Existe em nós um sentido instintivo de revol...

O memorioso

Tudo é imaginável no terreno da literatura. Lugares como a ilha da Atlântida ou o castelo de Kafka, criaturas como Frankenstein, Gregor Samsa, Sherlock Holmes e Dom Quixote, são apenas alguns exemplos conhecidíssimos que atestam o fulgor imaginativo de que a literatura é constituída. Desde o seu início que a literatura "teima" em agarrar-se aos terrenos do invisível e do inverosímil, o que nos possibilitou o conhecimento de que ao alargarmos os limites da imaginação (penetrando no terreno do inimaginável) estamos também a alterar a estrutura da realidade. É factual que o imaginário intromete-se sempre na realidade, por vezes até de forma brutal, como é o caso da história das religiões, por exemplo. Em 1942, Jorge Luis Borges publicou um pequeno conto intitulado Funes, o memorioso ,  no qual procede a um portentoso exercício de imaginação criando um ser humano capaz de memorizar tudo, literalmente tudo. O "herói" desta narrativa é um jovem chamado Ireneo Fun...

Paraísos mortos à nascença

Museu do Genocídio Tuol Sleng "Como sempre, quanto mais radioso se apresenta o futuro, mais perto está a catástrofe." Quando o escritor alemão W.G.Sebald escreveu esta frase, havia ainda uma parte considerável do mundo a recuperar das agruras provocadas pelas duas maiores experiências políticas do século XX -o comunismo e o nazismo. De facto -e esta é a faceta mais deprimente dos grandes projectos políticos do século passado-  a barbárie ocorrida durante o século XX nasceu muitas vezes da tentativa de corrigir ou de eliminar dramas humanos como a pobreza, a desigualdade, a injustiça. Foi o caso do Camboja.  No dia 17 de Abril de 1975, a cidade de Phnom Penh foi cercada pelos khmers vermelhos. Os objectivos dos khmers vermelhos pareciam puros e nobres: pôr cobro à miséria material em que vivia a população do Camboja e abolir a exploração "do homem pelo homem" provocada, no entender dos revolucionários combojanos, pela natureza odiosa do sistema capitalista....