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Mensagens

Excesso de realidade

The Literary Digest, Studying French in the Trenches, 20 de Outubro de 1917 A espécie humana não pode suportar muita realidade, escreveu o poeta inglês T.S.Eliot. Ele tem razão. Quando, por qualquer razão, esta frase vem ter contigo, penso imediatamente no problema do sofrimento humano. Emil Cioran observou que o que irrita no desespero é “a sua legitimidade, sua evidência, sua documentação: é pura reportagem”. Isto pertence ao domínio dos factos, no entanto, é indesmentível que não existe praticamente ninguém que aceite o sofrimento de forma totalmente pura. Aqueles que aceitam o sofrimento com pureza caminham com a cruz em direcção à auto-destruição. Podemos dizer que morrem devido ao excesso de realidade. Contudo, a maior parte das pessoas não é assim, pois rebela-se contra o sofrimento, transformando-o. Os métodos usados para transformar o sofrimento em algo diferente daquilo que ele é na sua essência são inesgotáveis, mas todos eles se propõem a alcançar o mesmo objectivo – ...

Os primitivos e os contemporâneos

Claude Lévi-Strauss, Amazónia, 1936 Ao olhar para trás (para o passado), o homem contemporâneo tende a fazer uma leitura simultaneamente pueril e presunçosa da existência do homem "primitivo". É evidente que não se trata de uma característica exclusiva da actualidade, até porque todas as gerações possuem no seu âmago ideológico a convicção de que são superiores a todas aquelas que as precederam, no entanto, é um facto que esta desagradável jactância nunca foi tão notória como no momento actual. Como é que isto se explica?  Existem certamente variadíssimas explicações, mas a mais importante talvez esteja relacionada com a crença que serve de base a todo o edifício ideológico da era contemporânea, nomeadamente a crença no progresso tecnológico. Cada sociedade assegura a sua coesão e estabilidade através da adopção de um conjunto de crenças, ideais e opiniões por parte do maior número possível de indivíduos. Durante muito tempo, a densa teia das mitologias assumiu uma...

Sobre a confiança

Num poema dedicado a Schubert, o poeta sueco Tomas Tranströmer- no meio de considerações sobre Nova Iorque, as viagens transatlânticas das aves, o poder e a natureza da música, entre outros assuntos- reflecte a certa altura sobre o acto de confiar: "Em quantas coisas não temos de confiar para poder viver o dia a    dia sem nos afundarmos pela terra abaixo!  Confiar nos montes de neve que se agarram com força à  vertente    da montanha sobranceira à aldeia!  Confiar nas promessas de manter segredo e no sorriso de mútuo    acordo, confiar em que o telegrama que comunica o acidente    não se destina a nós, e que a inesperada pontada aguda não se    fará sentir.  Confiar nos eixos das rodas que nos suportam na autoestrada, no    meio de um enxame de aço trezentas vezes maior.  E, contudo, nada disto é merecedor de confiança da nossa parte." Tomas Tranströmer tem razão. É espantosa a quanti...

Ser o que se é

O meu único arrependimento na vida é não ser outra pessoa, disse Woody Allen. Numa época em que a auto-adoração e o narcisismo imperam, não é socialmente aceitável ouvir alguém que confessa o seu desagrado por não ser diferente daquilo que é, por não ser outra pessoa. A frase "ama-te a ti mesmo" não é uma mera banalidade à qual foi concedido o estatuto de mandamento secular. "Ama-te a ti mesmo" é um dos sinais identitários que melhor caracterizam os nossos tempos. No entanto, creio que o lamento de Woody Allen é importante, pois toca num ponto central da psicologia humana- a relação tempestuosa do indivíduo consigo mesmo.  Por muito resistente que pareça o verniz que cobre e encobre os comportamentos quotidianos da era contemporânea, o certo é que continua a ser tremendamente difícil aceitar ser o que se é. Não foi à toa que Albert Camus escreveu que "o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é". Existe em nós um sentido instintivo de revol...

O memorioso

Tudo é imaginável no terreno da literatura. Lugares como a ilha da Atlântida ou o castelo de Kafka, criaturas como Frankenstein, Gregor Samsa, Sherlock Holmes e Dom Quixote, são apenas alguns exemplos conhecidíssimos que atestam o fulgor imaginativo de que a literatura é constituída. Desde o seu início que a literatura "teima" em agarrar-se aos terrenos do invisível e do inverosímil, o que nos possibilitou o conhecimento de que ao alargarmos os limites da imaginação (penetrando no terreno do inimaginável) estamos também a alterar a estrutura da realidade. É factual que o imaginário intromete-se sempre na realidade, por vezes até de forma brutal, como é o caso da história das religiões, por exemplo. Em 1942, Jorge Luis Borges publicou um pequeno conto intitulado Funes, o memorioso ,  no qual procede a um portentoso exercício de imaginação criando um ser humano capaz de memorizar tudo, literalmente tudo. O "herói" desta narrativa é um jovem chamado Ireneo Fun...

Paraísos mortos à nascença

Museu do Genocídio Tuol Sleng "Como sempre, quanto mais radioso se apresenta o futuro, mais perto está a catástrofe." Quando o escritor alemão W.G.Sebald escreveu esta frase, havia ainda uma parte considerável do mundo a recuperar das agruras provocadas pelas duas maiores experiências políticas do século XX -o comunismo e o nazismo. De facto -e esta é a faceta mais deprimente dos grandes projectos políticos do século passado-  a barbárie ocorrida durante o século XX nasceu muitas vezes da tentativa de corrigir ou de eliminar dramas humanos como a pobreza, a desigualdade, a injustiça. Foi o caso do Camboja.  No dia 17 de Abril de 1975, a cidade de Phnom Penh foi cercada pelos khmers vermelhos. Os objectivos dos khmers vermelhos pareciam puros e nobres: pôr cobro à miséria material em que vivia a população do Camboja e abolir a exploração "do homem pelo homem" provocada, no entender dos revolucionários combojanos, pela natureza odiosa do sistema capitalista....