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Mensagens

Um interessante caso de estudo

Timothy Dexter Numa carta enviada à namorada, Sigmund Freud escreveu o seguinte: "A única coisa que me faz sofrer é a impossibilidade de te provar o meu amor." Penso muitas vezes nesta frase. O sofrimento de Freud é vivido todos os dias por inúmeras pessoas. Gostaríamos de transmitir aos outros o grau exacto da nossa afeição por eles. É esta uma das nossas utopias privadas. Claro que se trata de um desejo condenado ao fracasso, uma vez que não estamos na posse da prova definitiva que poderia demolir de vez as dúvidas intrínsecas a qualquer relacionamento humano.         Por outro lado, é indiscutível que também precisamos de saber o quanto somos apreciados e amados por aqueles que nos rodeiam. A questão está em saber até onde estamos dispostos a ir para alcançarmos esse objectivo. No início do século XIX, o americano Timothy Dexter, homem de negócios, patologicamente excêntrico,  decidiu testar os sentimentos daqueles que o rodeavam: simulou a próp...

Vista de Delft

  Vista de Delft, Johannes Vermeer, 1660-1661 Para o escritor francês Marcel Proust, Vista de Delft era o mais belo quadro do mundo. Não podemos determinar exactamente se Proust tem ou não razão, dada a natureza profundamente subjectiva de qualquer avaliação estética, no entanto, é muito fácil sermos arrastados para uma conclusão idêntica assim que pousamos o olhar em Vista de Delft .      Consigo, sem grande esforço, demorar-me neste magnífico quadro durante imenso tempo. Quando tal acontece, ou seja, quando consigo olhar para algo durante muito tempo, isso significa que estou a olhar para o belo em estado puro. Como Simone Weil explicou, "o belo é qualquer coisa a que podemos dar atenção." Nesses momentos, o meu olhar vagueia pela totalidade da tela, percorrendo o seus espaços nos sentidos horizontal e vertical, em busca de algo que eu tenho dificuldade em discernir o que possa ser. É a velha história contada por Blaise Pascal: "o coração tem razões qu...

Sinal dos tempos

Cartoon de Avi Steinberg, publicado recentemente na revista The New Yorker

Servidões

Retrato de Herberto Helder, Frederico Penteado Li recentemente uma entrevista feita ao escritor e professor Nuno Bragança, em que, a certa altura, ele dizia isto: o século XX português é o grande século da poesia europeia. É verosímil que esta observação esteja correcta. Basta referir apenas alguns nomes: Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, Mário Cesariny e, claro, Herberto Helder.       Ao longo de mais de meio século, Herberto Helder foi tecendo a sua obra poética, singularíssima no panorama das letras portuguesas. Numa era em que até os mais pequenos se põem em bicos de pés para alcançar a fama - e as vantagens dela provenientes - Herberto Helder recusou sempre a cedência ao estatuto de figura pública. Não dava entrevistas, não aceitava  ser fotografado e recusou os vários prémios que lhe foram concedidos (incluindo o prémio Pessoa). Como acontece tantas ve...

Pseudofundamentalismo

No rescaldo do ataque terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo , Slavoj Žižek - filósofo esloveno - escreveu um pequeno e interessante livro sobre o "problema" do Islão.  Um dos aspectos mais interessantes do livro O Islão é Charlie? (tradução portuguesa) é a tese em que o autor põe em causa a autenticidade do fundamentalismo islâmico.  Para Žižek, o pseudofundamentalismo islâmico assenta na ausência de uma particularidade que se encontra em todos os fundamentalistas autênticos, como os budistas do Tibete ou as comunidades Amish dos Estados Unidos: a profunda indiferença que estes sentem pelo estilo de vida dos não-crentes. Na verdade, diz Žižek, "os pseudofundamentalistas terroristas estão profundamente irritados, fascinados, pela vida pecaminosa dos não-crentes". Se os "fundamentalistas islâmicos" sentissem indiferença pelos ocidentais seriam incapazes de recorrer ao uso de meios radicais como o fazem, uma vez que a indiferença é, por defini...

Quando os Lobos Uivam

Na recta final da sua vida, Aquilino Ribeiro publicou, em 1958, aquele que é, provavelmente, o seu romance mais conhecido: Quando os Lobos Uivam . Dono de uma personalidade e de uma escrita naturalmente insurrectas, Aquilino Ribeiro conheceu intimamente os agravos impostos por um regime do qual foi sempre opositor: o Estado Novo. Como é evidente, a liberdade que exala das páginas deste livro não passou despercebida ao crivo da censura, uma vez que - e agora cito o censor- "o autor intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política." Quando os Lobos Uivam é uma obra que, no meu entender, sumariza como poucas as características essenciais do século XX português. Nele encontramos a denúncia feita ao Estado enquanto instituição opressiva e repressiva, incapaz de facultar aos cidadãos que tutela os direitos, liberdades e garantias próprios de...

Dia D

Há precisamente 75 anos, na madrugada de 6 de Junho de 1944, as tropas aliadas desembarcaram na costa da Normandia, dando início à «Operação Overlord». Olhando atentamente para as famosas fotografias de Robert Capa tiradas na praia Omaha, só me apetece recordar a frase lapidar do  Heart of Darkness  de Joseph Conrad: "O horror! O horror!" Robert Capa

Giovanni Segantini

A Natureza, A Vida, A Morte: são estes os nomes das obras pictóricas que compõem o célebre tríptico pintado pelo italiano Giovanni Segantini entre os anos de 1896 e 1899. Tido como representante de vários movimentos artísticos (realista, simbolista, pontilhista, impressionista), a carreira artística de Giovanni Segantini foi pautada pela tentativa de transmitir a beleza, os encantos e os mistérios que se encontram encerrados na natureza. A haver alguém apaixonado pela paisagem alpina, esse alguém foi Giovanni Segantini. O desvelo, a atenção e a paixão com que Segantini pintou as montanhas alpinas, tornaram-no, na opinião de alguns, o maior dos maiores dos «pintores alpinos». Creio que é justo.  A Natureza, Giovanni Segantini, 1896-1899 A Vida, Giovanni Segantini, 1896-1899 A Morte, Giovanni Segantini, 1896-1899

Evangelhos

A Última Ceia, 1631-1632, Peter Paul Rubens Dizem os hassídicos - um movimento setecentista surgido no interior do judaísmo - que o Talmude não tem primeira página porque todo o leitor já começou a lê-lo antes de ler as primeiras palavras. No fundo, esta ideia aplica-se a qualquer grande livro. Como os quatro Evangelhos do  Novo Testamento , por exemplo. Quem nunca ouviu falar dos vendilhões do templo, da gravidez miraculosa de Maria, do trigo e do joio, da multiplicação dos pães, da fé que move uma montanha, ou de figuras como Judas, Maria Madalena e Pilatos? E no entanto, este conhecimento que antecede até a própria leitura dos Evangelhos, não afasta o aturdimento que sentimos ao entrarmos nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. O aturdimento resulta, em parte, do nevoeiro que continua a pairar sobre estes quatro documentos. Há um conjunto enorme de informação que nos continua a escapar sempre que falamos nos textos dos evangelistas. Não sabemos, por exemplo, quem...

Recordações da Casa Amarela

"Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste... Dentro de pouco tempo, estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto de terra."  Assim começa Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro, o primeiro filme da chamada trilogia de João de Deus, personagem interpretada pelo próprio João César Monteiro, funcionando como seu alter-ego.  O filme  Recordações da Casa Amarela possui inúmeros méritos e qualidades. Um dos méritos consiste em fazer-nos sentir aquele encanto particular que só emerge quando algo de original se apresenta diante de nós. No centro de Recordações da Casa Amarela está João de Deus; poeta, socialmente marginal, psicologicamente alienado e sempre "um bocado à rasca de massas", assim poderia ser escrita uma pequena súmula biográfica d...