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Mensagens

Pseudofundamentalismo

No rescaldo do ataque terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo , Slavoj Žižek - filósofo esloveno - escreveu um pequeno e interessante livro sobre o "problema" do Islão.  Um dos aspectos mais interessantes do livro O Islão é Charlie? (tradução portuguesa) é a tese em que o autor põe em causa a autenticidade do fundamentalismo islâmico.  Para Žižek, o pseudofundamentalismo islâmico assenta na ausência de uma particularidade que se encontra em todos os fundamentalistas autênticos, como os budistas do Tibete ou as comunidades Amish dos Estados Unidos: a profunda indiferença que estes sentem pelo estilo de vida dos não-crentes. Na verdade, diz Žižek, "os pseudofundamentalistas terroristas estão profundamente irritados, fascinados, pela vida pecaminosa dos não-crentes". Se os "fundamentalistas islâmicos" sentissem indiferença pelos ocidentais seriam incapazes de recorrer ao uso de meios radicais como o fazem, uma vez que a indiferença é, por defini...

Quando os Lobos Uivam

Na recta final da sua vida, Aquilino Ribeiro publicou, em 1958, aquele que é, provavelmente, o seu romance mais conhecido: Quando os Lobos Uivam . Dono de uma personalidade e de uma escrita naturalmente insurrectas, Aquilino Ribeiro conheceu intimamente os agravos impostos por um regime do qual foi sempre opositor: o Estado Novo. Como é evidente, a liberdade que exala das páginas deste livro não passou despercebida ao crivo da censura, uma vez que - e agora cito o censor- "o autor intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política." Quando os Lobos Uivam é uma obra que, no meu entender, sumariza como poucas as características essenciais do século XX português. Nele encontramos a denúncia feita ao Estado enquanto instituição opressiva e repressiva, incapaz de facultar aos cidadãos que tutela os direitos, liberdades e garantias próprios de...

Dia D

Há precisamente 75 anos, na madrugada de 6 de Junho de 1944, as tropas aliadas desembarcaram na costa da Normandia, dando início à «Operação Overlord». Olhando atentamente para as famosas fotografias de Robert Capa tiradas na praia Omaha, só me apetece recordar a frase lapidar do  Heart of Darkness  de Joseph Conrad: "O horror! O horror!" Robert Capa

Giovanni Segantini

A Natureza, A Vida, A Morte: são estes os nomes das obras pictóricas que compõem o célebre tríptico pintado pelo italiano Giovanni Segantini entre os anos de 1896 e 1899. Tido como representante de vários movimentos artísticos (realista, simbolista, pontilhista, impressionista), a carreira artística de Giovanni Segantini foi pautada pela tentativa de transmitir a beleza, os encantos e os mistérios que se encontram encerrados na natureza. A haver alguém apaixonado pela paisagem alpina, esse alguém foi Giovanni Segantini. O desvelo, a atenção e a paixão com que Segantini pintou as montanhas alpinas, tornaram-no, na opinião de alguns, o maior dos maiores dos «pintores alpinos». Creio que é justo.  A Natureza, Giovanni Segantini, 1896-1899 A Vida, Giovanni Segantini, 1896-1899 A Morte, Giovanni Segantini, 1896-1899

Evangelhos

A Última Ceia, 1631-1632, Peter Paul Rubens Dizem os hassídicos - um movimento setecentista surgido no interior do judaísmo - que o Talmude não tem primeira página porque todo o leitor já começou a lê-lo antes de ler as primeiras palavras. No fundo, esta ideia aplica-se a qualquer grande livro. Como os quatro Evangelhos do  Novo Testamento , por exemplo. Quem nunca ouviu falar dos vendilhões do templo, da gravidez miraculosa de Maria, do trigo e do joio, da multiplicação dos pães, da fé que move uma montanha, ou de figuras como Judas, Maria Madalena e Pilatos? E no entanto, este conhecimento que antecede até a própria leitura dos Evangelhos, não afasta o aturdimento que sentimos ao entrarmos nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. O aturdimento resulta, em parte, do nevoeiro que continua a pairar sobre estes quatro documentos. Há um conjunto enorme de informação que nos continua a escapar sempre que falamos nos textos dos evangelistas. Não sabemos, por exemplo, quem...

Recordações da Casa Amarela

"Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste... Dentro de pouco tempo, estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto de terra."  Assim começa Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro, o primeiro filme da chamada trilogia de João de Deus, personagem interpretada pelo próprio João César Monteiro, funcionando como seu alter-ego.  O filme  Recordações da Casa Amarela possui inúmeros méritos e qualidades. Um dos méritos consiste em fazer-nos sentir aquele encanto particular que só emerge quando algo de original se apresenta diante de nós. No centro de Recordações da Casa Amarela está João de Deus; poeta, socialmente marginal, psicologicamente alienado e sempre "um bocado à rasca de massas", assim poderia ser escrita uma pequena súmula biográfica d...

Quando a beleza e a melancolia se encontram

I would rather not go Back to the old house I would rather not go Back to the old house There's too many bad memories Too many bad memories there When you cycled by Here began all my dreams The saddest thing I've ever seen And you never knew  How much I really liked you Because I never even told you Oh, I meant to Are you still there or have you moved away? Or have you moved away? I would love to go Back to the old house But I never will I never will I never will [The Smiths, «Back to the Old House», do álbum Hatful of Hollow,  1984]

Poesia

Homero, 1663, Rembrandt Em 1945, George Orwell publicou um ensaio intitulado A Poesia e o Microfone . Nesse ensaio, Orwell aborda a problemática do divórcio existente entre a poesia e o "homem comum", problema intemporal que, no entender de Orwell, talvez pudesse ser suavizado através da divulgação de obras poéticas nos meios radiofónicos. Infelizmente, sabemos hoje que as esperanças de Orwell nunca viram a luz do dia, isto é, a rádio (assim como a televisão, a internet, etc) foi incapaz de estabelecer a ponte necessária entre o cidadão comum e a poesia. A poesia é, e provavelmente será sempre, uma arte reservada a um nicho bastante diminuto. Como é que isto se explica? Dou a palavra a George Orwell: "A poesia é impopular porque está associada a ininteligibilidade, a pretensiosismo intelectual e a produto duma classe ociosa. A palavra 'poesia' suscita uma repulsa tão imediata como a palavra 'Deus' ou o colarinho sacerdotal." Ou ainda: "Nã...

Fantasia

Dom Quixote, 1955, Pablo Picasso Imaginemos duas pessoas entregues a esse exercício labiríntico e fascinante que se chama fantasiar . Uma delas viveu no século XVIII, a outra pertence aos nossos dias. Será que faz algum sentido equiparar a natureza das experiências destes dois seres que fantasiam? Não creio. É evidente que o conteúdo das fantasias de cada um não é o mesmo, visto que existe uma distância de 300 anos a separá-los. Mas não é isto que importa evidenciar. O ponto essencial prende-se com o facto de o homem contemporâneo experienciar as suas fantasias de uma forma que nada tem que ver com a do homem setecentista. No meu entender, nada contribuiu tão decisivamente para a metamorfose do conceito de fantasia como os novos meios de comunicação e informação. Em primeiro lugar, existe um problema sério relacionado com o excesso de informação. Quer a imaginação, quer a fantasia, são, por definição, muitíssimo sensíveis ao excesso de informação. Não é possível que uma fantasia...

Simone Weil

Um dos problemas que afectam as sociedades actuais prende-se com a maneira como os partidos políticos conduzem os assuntos públicos. É notório que existe uma descrença generalizada dos cidadãos relativamente aos partidos políticos, descrença essa que parece agudizar-se a cada ano que passa. Não estamos perante um problema novo. Em 1943, Simone Weil -escritora e filósofa francesa- escreveu um pequeno ensaio intitulado "Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos". Nesse livro, a autora declara sucintamente algo tão simples e tão violento como isto: os partidos políticos devem ser abolidos, pois não servem o bem. Segundo a autora, a democracia e os seus representantes directos (os partidos políticos) devem ser um meio através do qual se visa o bem. Mas o que é o bem? Para Simone Weil, o bem é constituído por três elementos, nomeadamente a verdade, a justiça e a utilidade pública, dando assim a entender a sua abordagem moral da política. A ênfase que a autora coloca...