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Mensagens

Palma de Ouro de 2019

Ki-Taek : You know what kind of plan never fails? No plan. No plan at all. You know why? Because life cannot be planned. Look around you. Did you think these people made a plan to sleep in the sports hall with you? But here we are now, sleeping together on the floor. So, there's no need for a plan. You can't go wrong with no plans. We don't need to make a plan for anything. It doesn't matter what will happen next. Even if the country gets destroyed or sold out, nobody cares. Got it? [Parasita, Bong Joon-ho, 2019]

Pequena nota sobre a escrita

Em Fevereiro de 2002, Donald Rumsfeld - o então secretário da defesa dos Estados Unidos da América - produziu uma declaração curiosa num dos habituais briefings no Pentágono. Quando perguntado sobre a ausência de evidências relativa a um hipotético conluio entre o Governo iraquiano (liderado por Saddam Hussein) e a organização terrorista Al-Qaeda, Donald Rumsfeld proferiu o seguinte: "Relatos que dizem que uma coisa não aconteceu sempre me parecem interessantes, porque, como sabemos, há coisas conhecidas conhecidas, há coisas que sabemos que sabemos. Nós também sabemos que há coisas conhecidas desconhecidas: ou seja, nós sabemos que há algumas coisas que nós não conhecemos. Mas há também coisas desconhecidas desconhecidas – as que não sabemos que não sabemos."  O hermetismo desta resposta serviu-me para pensar na natureza da escrita, particularmente da escrita ficcional. Para mim, a ideia de que há coisas que nós sabemos que não sabemos adequa-se perfeitamente ao acto de...

Impressionismo

Nas décadas de 60 e 70 do século XIX, a acção concertada, apaixonada e tenaz de um grupo de jovens artistas pôs em movimento uma corrente artística com uma importância ímpar na história da pintura: o Impressionismo. Como seria de esperar, o establishment artístico não acolheu de bom grado as inovações operadas pelo movimento impressionista. Alguns dos mais influentes críticos de arte da época, como Louis Leroy (que esteve presente na primeira exposição deste grupo, em 1874, tendo sido lá que ele cunhou este grupo de "impressionista"), receberam as telas de Claude Monet, Alfred Sisley, Camille Pissarro, August Renoir, entre muitos outros, com desagrado, incredulidade e horror.       O caminho trilhado pelos impressionistas na difusão das suas ideias foi tudo menos fácil. A luta incessante contra as visões tradicionalistas que imperavam no meio artístico, ainda muito aferrado ao academismo da época, marcou o despontar deste movimento. Quando não houve uma complet...

Filantropia

São Tomás de Vilanova dando esmola aos pobres, Bartolomé Esteban Murillo 989 personagens: é este o número de personagens criadas pelo romancista Charles Dickens ao longo da sua prolífica carreira literária. Perante este número gigantesco, é razoável afirmar que a obra de Dickens é uma das possíveis estradas que podemos percorrer se quisermos conhecer a fundo os inúmeros caracteres que constituem a espécie humana. Estão lá todos. Cada ser humano é um mundo, e a totalidade desse mundo encontra-se comprimida no interior das milhares de páginas escritas por Dickens, arrisco-me a dizer.       No quarto capítulo do romance Casa Sombria , Dickens - no meio de um emaranhado infernal de personagens - leva o leitor pela mão e apresenta-lhe a senhora Jellyby. Quem é a senhora Jellyby? Ninguém melhor que o seu criador para descrever a insigne senhora: "A senhora Jellyby é uma pessoa extraordinariamente enérgica, por completo consagrada ao bem público. Em várias épocas da...

Um interessante caso de estudo

Timothy Dexter Numa carta enviada à namorada, Sigmund Freud escreveu o seguinte: "A única coisa que me faz sofrer é a impossibilidade de te provar o meu amor." Penso muitas vezes nesta frase. O sofrimento de Freud é vivido todos os dias por inúmeras pessoas. Gostaríamos de transmitir aos outros o grau exacto da nossa afeição por eles. É esta uma das nossas utopias privadas. Claro que se trata de um desejo condenado ao fracasso, uma vez que não estamos na posse da prova definitiva que poderia demolir de vez as dúvidas intrínsecas a qualquer relacionamento humano.         Por outro lado, é indiscutível que também precisamos de saber o quanto somos apreciados e amados por aqueles que nos rodeiam. A questão está em saber até onde estamos dispostos a ir para alcançarmos esse objectivo. No início do século XIX, o americano Timothy Dexter, homem de negócios, patologicamente excêntrico,  decidiu testar os sentimentos daqueles que o rodeavam: simulou a próp...

Vista de Delft

  Vista de Delft, Johannes Vermeer, 1660-1661 Para o escritor francês Marcel Proust, Vista de Delft era o mais belo quadro do mundo. Não podemos determinar exactamente se Proust tem ou não razão, dada a natureza profundamente subjectiva de qualquer avaliação estética, no entanto, é muito fácil sermos arrastados para uma conclusão idêntica assim que pousamos o olhar em Vista de Delft .      Consigo, sem grande esforço, demorar-me neste magnífico quadro durante imenso tempo. Quando tal acontece, ou seja, quando consigo olhar para algo durante muito tempo, isso significa que estou a olhar para o belo em estado puro. Como Simone Weil explicou, "o belo é qualquer coisa a que podemos dar atenção." Nesses momentos, o meu olhar vagueia pela totalidade da tela, percorrendo o seus espaços nos sentidos horizontal e vertical, em busca de algo que eu tenho dificuldade em discernir o que possa ser. É a velha história contada por Blaise Pascal: "o coração tem razões qu...

Sinal dos tempos

Cartoon de Avi Steinberg, publicado recentemente na revista The New Yorker

Servidões

Retrato de Herberto Helder, Frederico Penteado Li recentemente uma entrevista feita ao escritor e professor Nuno Bragança, em que, a certa altura, ele dizia isto: o século XX português é o grande século da poesia europeia. É verosímil que esta observação esteja correcta. Basta referir apenas alguns nomes: Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, Mário Cesariny e, claro, Herberto Helder.       Ao longo de mais de meio século, Herberto Helder foi tecendo a sua obra poética, singularíssima no panorama das letras portuguesas. Numa era em que até os mais pequenos se põem em bicos de pés para alcançar a fama - e as vantagens dela provenientes - Herberto Helder recusou sempre a cedência ao estatuto de figura pública. Não dava entrevistas, não aceitava  ser fotografado e recusou os vários prémios que lhe foram concedidos (incluindo o prémio Pessoa). Como acontece tantas ve...

Pseudofundamentalismo

No rescaldo do ataque terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo , Slavoj Žižek - filósofo esloveno - escreveu um pequeno e interessante livro sobre o "problema" do Islão.  Um dos aspectos mais interessantes do livro O Islão é Charlie? (tradução portuguesa) é a tese em que o autor põe em causa a autenticidade do fundamentalismo islâmico.  Para Žižek, o pseudofundamentalismo islâmico assenta na ausência de uma particularidade que se encontra em todos os fundamentalistas autênticos, como os budistas do Tibete ou as comunidades Amish dos Estados Unidos: a profunda indiferença que estes sentem pelo estilo de vida dos não-crentes. Na verdade, diz Žižek, "os pseudofundamentalistas terroristas estão profundamente irritados, fascinados, pela vida pecaminosa dos não-crentes". Se os "fundamentalistas islâmicos" sentissem indiferença pelos ocidentais seriam incapazes de recorrer ao uso de meios radicais como o fazem, uma vez que a indiferença é, por defini...

Quando os Lobos Uivam

Na recta final da sua vida, Aquilino Ribeiro publicou, em 1958, aquele que é, provavelmente, o seu romance mais conhecido: Quando os Lobos Uivam . Dono de uma personalidade e de uma escrita naturalmente insurrectas, Aquilino Ribeiro conheceu intimamente os agravos impostos por um regime do qual foi sempre opositor: o Estado Novo. Como é evidente, a liberdade que exala das páginas deste livro não passou despercebida ao crivo da censura, uma vez que - e agora cito o censor- "o autor intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política." Quando os Lobos Uivam é uma obra que, no meu entender, sumariza como poucas as características essenciais do século XX português. Nele encontramos a denúncia feita ao Estado enquanto instituição opressiva e repressiva, incapaz de facultar aos cidadãos que tutela os direitos, liberdades e garantias próprios de...