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Mensagens

Giovanni Segantini

A Natureza, A Vida, A Morte: são estes os nomes das obras pictóricas que compõem o célebre tríptico pintado pelo italiano Giovanni Segantini entre os anos de 1896 e 1899. Tido como representante de vários movimentos artísticos (realista, simbolista, pontilhista, impressionista), a carreira artística de Giovanni Segantini foi pautada pela tentativa de transmitir a beleza, os encantos e os mistérios que se encontram encerrados na natureza. A haver alguém apaixonado pela paisagem alpina, esse alguém foi Giovanni Segantini. O desvelo, a atenção e a paixão com que Segantini pintou as montanhas alpinas, tornaram-no, na opinião de alguns, o maior dos maiores dos «pintores alpinos». Creio que é justo.  A Natureza, Giovanni Segantini, 1896-1899 A Vida, Giovanni Segantini, 1896-1899 A Morte, Giovanni Segantini, 1896-1899

Evangelhos

A Última Ceia, 1631-1632, Peter Paul Rubens Dizem os hassídicos - um movimento setecentista surgido no interior do judaísmo - que o Talmude não tem primeira página porque todo o leitor já começou a lê-lo antes de ler as primeiras palavras. No fundo, esta ideia aplica-se a qualquer grande livro. Como os quatro Evangelhos do  Novo Testamento , por exemplo. Quem nunca ouviu falar dos vendilhões do templo, da gravidez miraculosa de Maria, do trigo e do joio, da multiplicação dos pães, da fé que move uma montanha, ou de figuras como Judas, Maria Madalena e Pilatos? E no entanto, este conhecimento que antecede até a própria leitura dos Evangelhos, não afasta o aturdimento que sentimos ao entrarmos nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. O aturdimento resulta, em parte, do nevoeiro que continua a pairar sobre estes quatro documentos. Há um conjunto enorme de informação que nos continua a escapar sempre que falamos nos textos dos evangelistas. Não sabemos, por exemplo, quem...

Recordações da Casa Amarela

"Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste... Dentro de pouco tempo, estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto de terra."  Assim começa Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro, o primeiro filme da chamada trilogia de João de Deus, personagem interpretada pelo próprio João César Monteiro, funcionando como seu alter-ego.  O filme  Recordações da Casa Amarela possui inúmeros méritos e qualidades. Um dos méritos consiste em fazer-nos sentir aquele encanto particular que só emerge quando algo de original se apresenta diante de nós. No centro de Recordações da Casa Amarela está João de Deus; poeta, socialmente marginal, psicologicamente alienado e sempre "um bocado à rasca de massas", assim poderia ser escrita uma pequena súmula biográfica d...

Quando a beleza e a melancolia se encontram

I would rather not go Back to the old house I would rather not go Back to the old house There's too many bad memories Too many bad memories there When you cycled by Here began all my dreams The saddest thing I've ever seen And you never knew  How much I really liked you Because I never even told you Oh, I meant to Are you still there or have you moved away? Or have you moved away? I would love to go Back to the old house But I never will I never will I never will [The Smiths, «Back to the Old House», do álbum Hatful of Hollow,  1984]

Poesia

Homero, 1663, Rembrandt Em 1945, George Orwell publicou um ensaio intitulado A Poesia e o Microfone . Nesse ensaio, Orwell aborda a problemática do divórcio existente entre a poesia e o "homem comum", problema intemporal que, no entender de Orwell, talvez pudesse ser suavizado através da divulgação de obras poéticas nos meios radiofónicos. Infelizmente, sabemos hoje que as esperanças de Orwell nunca viram a luz do dia, isto é, a rádio (assim como a televisão, a internet, etc) foi incapaz de estabelecer a ponte necessária entre o cidadão comum e a poesia. A poesia é, e provavelmente será sempre, uma arte reservada a um nicho bastante diminuto. Como é que isto se explica? Dou a palavra a George Orwell: "A poesia é impopular porque está associada a ininteligibilidade, a pretensiosismo intelectual e a produto duma classe ociosa. A palavra 'poesia' suscita uma repulsa tão imediata como a palavra 'Deus' ou o colarinho sacerdotal." Ou ainda: "Nã...

Fantasia

Dom Quixote, 1955, Pablo Picasso Imaginemos duas pessoas entregues a esse exercício labiríntico e fascinante que se chama fantasiar . Uma delas viveu no século XVIII, a outra pertence aos nossos dias. Será que faz algum sentido equiparar a natureza das experiências destes dois seres que fantasiam? Não creio. É evidente que o conteúdo das fantasias de cada um não é o mesmo, visto que existe uma distância de 300 anos a separá-los. Mas não é isto que importa evidenciar. O ponto essencial prende-se com o facto de o homem contemporâneo experienciar as suas fantasias de uma forma que nada tem que ver com a do homem setecentista. No meu entender, nada contribuiu tão decisivamente para a metamorfose do conceito de fantasia como os novos meios de comunicação e informação. Em primeiro lugar, existe um problema sério relacionado com o excesso de informação. Quer a imaginação, quer a fantasia, são, por definição, muitíssimo sensíveis ao excesso de informação. Não é possível que uma fantasia...

Simone Weil

Um dos problemas que afectam as sociedades actuais prende-se com a maneira como os partidos políticos conduzem os assuntos públicos. É notório que existe uma descrença generalizada dos cidadãos relativamente aos partidos políticos, descrença essa que parece agudizar-se a cada ano que passa. Não estamos perante um problema novo. Em 1943, Simone Weil -escritora e filósofa francesa- escreveu um pequeno ensaio intitulado "Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos". Nesse livro, a autora declara sucintamente algo tão simples e tão violento como isto: os partidos políticos devem ser abolidos, pois não servem o bem. Segundo a autora, a democracia e os seus representantes directos (os partidos políticos) devem ser um meio através do qual se visa o bem. Mas o que é o bem? Para Simone Weil, o bem é constituído por três elementos, nomeadamente a verdade, a justiça e a utilidade pública, dando assim a entender a sua abordagem moral da política. A ênfase que a autora coloca...

Metamorfose

Capa e contracapa da primeira edição da novela A Metamorfose "Quando Gregor Samsa, certa manhã, despertou na sua cama de sonhos intranquilos, descobriu-se metamorfoseado num monstruoso insecto." Escrita entre 17 de Novembro e 7 de Dezembro de 1912, A Metamorfose é uma obra central não só no universo de Kafka como também na história da literatura, tendo inspirado uma vasta legião de escritores. Numa entrevista concedida à revista Paris Review , Gabriel García Márquez revela deste modo o impacto que a leitura desta obra teve na sua vida: "One night a friend lent me a book of short stories by Franz Kafka. I went back to the pension where I was staying and began to read The Metamorphosis . The first line almost knocked me off the bed. I was so surprised. [...] When I read the line I thought to myself that I didn't know anyone was allowed to write things like that. If I had known, I would have started writing a long time ago. So I immediately started writing short s...

Excesso de realidade

The Literary Digest, Studying French in the Trenches, 20 de Outubro de 1917 A espécie humana não pode suportar muita realidade, escreveu o poeta inglês T.S.Eliot. Ele tem razão. Quando, por qualquer razão, esta frase vem ter contigo, penso imediatamente no problema do sofrimento humano. Emil Cioran observou que o que irrita no desespero é “a sua legitimidade, sua evidência, sua documentação: é pura reportagem”. Isto pertence ao domínio dos factos, no entanto, é indesmentível que não existe praticamente ninguém que aceite o sofrimento de forma totalmente pura. Aqueles que aceitam o sofrimento com pureza caminham com a cruz em direcção à auto-destruição. Podemos dizer que morrem devido ao excesso de realidade. Contudo, a maior parte das pessoas não é assim, pois rebela-se contra o sofrimento, transformando-o. Os métodos usados para transformar o sofrimento em algo diferente daquilo que ele é na sua essência são inesgotáveis, mas todos eles se propõem a alcançar o mesmo objectivo – ...

Os primitivos e os contemporâneos

Claude Lévi-Strauss, Amazónia, 1936 Ao olhar para trás (para o passado), o homem contemporâneo tende a fazer uma leitura simultaneamente pueril e presunçosa da existência do homem "primitivo". É evidente que não se trata de uma característica exclusiva da actualidade, até porque todas as gerações possuem no seu âmago ideológico a convicção de que são superiores a todas aquelas que as precederam, no entanto, é um facto que esta desagradável jactância nunca foi tão notória como no momento actual. Como é que isto se explica?  Existem certamente variadíssimas explicações, mas a mais importante talvez esteja relacionada com a crença que serve de base a todo o edifício ideológico da era contemporânea, nomeadamente a crença no progresso tecnológico. Cada sociedade assegura a sua coesão e estabilidade através da adopção de um conjunto de crenças, ideais e opiniões por parte do maior número possível de indivíduos. Durante muito tempo, a densa teia das mitologias assumiu uma...