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Mensagens

Marine Vacth

Não me é difícil imaginar que se levássemos um papagaio ao cinema para assistir ao filme Jeune et Jolie , de François Ozon, a única coisa que ele talvez soubesse dizer sobre o filme seria repetir incansavelmente "Marine Vacth, Marine Vacth, Marine Vacth..." Não me atreveria a censurar o animal, pois também a mim, que não sou um papagaio (tenho testemunhas que o podem comprovar), me foi impossível resistir ao desejo de dizer e redizer Marine Vacth vezes sem conta.       No filme Jeune et Jolie , a actriz francesa Marine Vacth interpreta o papel de Isabelle, uma jovem de 17 anos que, por razões pouco claras, experimenta entrar no mundo da "alta prostituição". Ao longo do filme não é dada ao espectador uma explicação conclusiva sobre as motivações de Isabelle. Não é o dinheiro que a cativa, muito menos a procura de prazer. A certa altura, a própria afirma que "não sentia quase nada" durante os encontros sexuais em que participou. Para Isabelle,...

Poema dedicado aos esfaimados de popularidade

Pouco antes de morrer, em 2015, Herberto Helder terminou o seu último livro de poesia. Poemas Canhotos , assim foi intitulado o livro. Fica aqui o poema que achei mais interessante: "(entra um jovem sobraçando um maço de poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud) poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud, um jovem ávido cheio de cotovelos no meio da multidão - afastem-se afastem-se que eu quero entrar no filme, eu quero que me descubram, eu vim a correr de noite até aqui, eu sou o astro de que grandeza primeira, tragam depressa o rapaz das filmagens, eu quero ser o actor do terramoto - afaste-se, senhor, não é a sua vez - não me afasto que a minha vez é sempre, oh dêem qualquer coisa ao rapaz frenético: um relâmpago fotográfico em cheio no rosto, um calmante, um sôco, um bombom recheado maria gloriazinha, vai ser difícil vai ser difícil o rapaz não tem escrúpulos, tem uma fome que vem das...

A transformação do prazer

Au Lapin Agile, Pablo Picasso, 1905 Num livro intitulado A Descrição da Infelicidade , o escritor alemão W.G.Sebald escreveu esta observação curiosa:" [...] o flâneur burguês alegava ter consciência de que as suas aventuras amorosas uma vez por outra o fariam correr riscos de vida e saúde não despiciendos, de modo que, numa espécie de autopunição heróica, o prazer ombreia com a morte."       Para obter o prazer desejado, o flâneur burguês - essa figura emblemática do século XIX - estava disposto a colocar o seu destino ao dispor dos ventos insondáveis da sorte e do azar, tendo total consciência do que daí poderia advir. Este pequeno excerto de Sebald é muitíssimo significativo, pois permite-nos captar as dissemelhanças existentes entre as sociedades antigas e as sociedades actuais no modo como ambas experienciam o prazer. Tornou-se um lugar-comum caracterizar ideologicamente as sociedades actuais rotulando-as de hedonistas . A busca incessante pelo prazer é ...

Meridiano de Sangue

Em Meridiano de Sangue , Cormac McCarthy recorre a uma série de acontecimentos historicamente factuais para estruturar o enredo do romance que é, na opinião de Harold Bloom, "o maior feito estético da literatura americana contemporânea." No rescaldo da guerra travada entre os Estados Unidos da América e o México, durante os anos de 1846 a 1848, na qual os mexicanos cederam mais de um milhão de metros quadrados de territórios aos seus vizinhos omnívoros do norte, o ímpeto expansionista e aculturador americano adquiriu um vigor acrescido. Em termos concretos, esse vigor traduziu-se - como seria expectável - na perseguição e aniquilação dos povos indígenas e mexicanos. Logo na primeira página, Cormac McCarthy instala-nos desconfortavelmente no aposento das trevas: "Vede o menino. É pálido e magro, traz no corpo uma camisa andrajosa de fino linho. [...] A mãe, morta nesse dia, há catorze anos, incubou no próprio seio a criatura que havia de lhe pôr fim à vida. O pai nu...

Donald Trump

Trump and His Sharpie, do cartoonista John Cuneo, publicado na revista New Yorker (6-9-2019) Quando oiço dizer que as crianças estão cada vez mais altas e encorpadas, lembro-me imediatamente de Donald Trump. Donald Trump mede mais de um metro e oitenta e cinco, possui uma compleição física magnífica (devidamente acompanhada por uma saúde não menos magnífica) e, segundo o que me foi dado a entender nos últimos três anos, continua a ser uma criança. O leitor menos atento a estas trivialidades talvez duvide da justeza desta descrição, no entanto, é sempre um erro colocarmos em causa as evidências, ainda para mais quando se trata de evidências científicas. Num relatório médico sobre Trump, escrito pelo próprio Donald Trump, é afirmado que "a sua força física e resistência são extraordinárias." Mas já se sabe que nem sempre existe uma relação directa entre o desempenho físico e a saúde, daí a necessidade que o "Doutor" Trump terá sentido em eliminar quaisquer su...

O Processo

Franz Kafka Houve gestos-chave que marcaram o século XX. Por todos os pontos do globo, milhões de cidadãos anónimos foram intimados, através de uma banal mas terrível batida numa simples porta, a receberem os arautos do totalitarismo nas suas próprias casas. Ser acordado a meio da noite, ou de manhã, pelo som que acompanha o acto de bater subitamente numa porta é, provavelmente, um dos gestos que melhor definem não só o modus operandi dos regimes ditatoriais do século passado, mas também a essência do próprio século. E poucos terão captado a essência do século passado como Franz Kafka.        A página inaugural do romance O Processo - escrito entre 1914 e 1915 por Franz Kafka - pode ser entendida como um testemunho profético daquilo que, na opinião de Kafka, estava para eclodir no seio da civilização ocidental. " Alguém devia ter difamado Josef K., pois, certa manhã, sem que tivesse feito qualquer mal, foi preso. [...] Imediatamente se ouviu alguém bat...

Palma de Ouro de 2019

Ki-Taek : You know what kind of plan never fails? No plan. No plan at all. You know why? Because life cannot be planned. Look around you. Did you think these people made a plan to sleep in the sports hall with you? But here we are now, sleeping together on the floor. So, there's no need for a plan. You can't go wrong with no plans. We don't need to make a plan for anything. It doesn't matter what will happen next. Even if the country gets destroyed or sold out, nobody cares. Got it? [Parasita, Bong Joon-ho, 2019]

Pequena nota sobre a escrita

Em Fevereiro de 2002, Donald Rumsfeld - o então secretário da defesa dos Estados Unidos da América - produziu uma declaração curiosa num dos habituais briefings no Pentágono. Quando perguntado sobre a ausência de evidências relativa a um hipotético conluio entre o Governo iraquiano (liderado por Saddam Hussein) e a organização terrorista Al-Qaeda, Donald Rumsfeld proferiu o seguinte: "Relatos que dizem que uma coisa não aconteceu sempre me parecem interessantes, porque, como sabemos, há coisas conhecidas conhecidas, há coisas que sabemos que sabemos. Nós também sabemos que há coisas conhecidas desconhecidas: ou seja, nós sabemos que há algumas coisas que nós não conhecemos. Mas há também coisas desconhecidas desconhecidas – as que não sabemos que não sabemos."  O hermetismo desta resposta serviu-me para pensar na natureza da escrita, particularmente da escrita ficcional. Para mim, a ideia de que há coisas que nós sabemos que não sabemos adequa-se perfeitamente ao acto de...

Impressionismo

Nas décadas de 60 e 70 do século XIX, a acção concertada, apaixonada e tenaz de um grupo de jovens artistas pôs em movimento uma corrente artística com uma importância ímpar na história da pintura: o Impressionismo. Como seria de esperar, o establishment artístico não acolheu de bom grado as inovações operadas pelo movimento impressionista. Alguns dos mais influentes críticos de arte da época, como Louis Leroy (que esteve presente na primeira exposição deste grupo, em 1874, tendo sido lá que ele cunhou este grupo de "impressionista"), receberam as telas de Claude Monet, Alfred Sisley, Camille Pissarro, August Renoir, entre muitos outros, com desagrado, incredulidade e horror.       O caminho trilhado pelos impressionistas na difusão das suas ideias foi tudo menos fácil. A luta incessante contra as visões tradicionalistas que imperavam no meio artístico, ainda muito aferrado ao academismo da época, marcou o despontar deste movimento. Quando não houve uma complet...

Filantropia

São Tomás de Vilanova dando esmola aos pobres, Bartolomé Esteban Murillo 989 personagens: é este o número de personagens criadas pelo romancista Charles Dickens ao longo da sua prolífica carreira literária. Perante este número gigantesco, é razoável afirmar que a obra de Dickens é uma das possíveis estradas que podemos percorrer se quisermos conhecer a fundo os inúmeros caracteres que constituem a espécie humana. Estão lá todos. Cada ser humano é um mundo, e a totalidade desse mundo encontra-se comprimida no interior das milhares de páginas escritas por Dickens, arrisco-me a dizer.       No quarto capítulo do romance Casa Sombria , Dickens - no meio de um emaranhado infernal de personagens - leva o leitor pela mão e apresenta-lhe a senhora Jellyby. Quem é a senhora Jellyby? Ninguém melhor que o seu criador para descrever a insigne senhora: "A senhora Jellyby é uma pessoa extraordinariamente enérgica, por completo consagrada ao bem público. Em várias épocas da...