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Mensagens

John Coltrane

Cristianismo

No início do século XVIII, durante o reinado de Luís XIV, o Papa Clemente XI, na bula Unigenitus (de 1713), afirma explicitamente que a leitura da Bíblia não deve ser uma prática adoptada por qualquer pessoa. No entender do Papa Clemente XI, o conhecimento e o estudo dos textos bíblicos não era algo vantajoso para a maioria dos fiéis. Recorro a este pequeno apontamento histórico para ilustrar o grau de absurdo que pautou - e ainda pauta - o relacionamento entre os representantes da Igreja (falo exclusivamente da vertente católica) e os crentes. 300 anos volvidos desde a publicação da bula papel Unigenitus , já ninguém afirma que a Bíblia não deve ser lida, contudo, continua a existir no âmago da Igreja Católica uma incapacidade confrangedora de transmitir aos crentes - e até aos não crentes - o legado histórico-cultural do Cristianismo. Imaginemos o seguinte cenário: o padre da nossa paróquia, para obter uma noção aprofundada do nível cultural dos "seus" fiéis, decide...

Assim Nasceu uma Língua

  Assim Nasceu uma Língua , do linguista Fernando Venâncio, é um ensaio rigoroso e interessantíssimo sobre as origens da língua portuguesa. O propósito cimeiro desta obra assenta na tentativa de, citando o autor, " localizar, no tempo e nas formas, o que alguém chamou «o primeiro gemido» do idioma." Tudo é feito com esmero, humor e espírito científico, nunca cedendo à ortodoxia engajada - esse tumor que tantas vezes impede que participemos num debate sério, coerente, racional e imparcial. Como manda a tradição, vou começar pelo princípio, tentando resumir os principais elementos constitutivos do pensamento de Fernando Venâncio.  No entender de Fernando Venâncio, existe uma coincidência bastante infeliz na história de Portugal. Segundo os dados existentes, o primeiro documento redigido em língua portuguesa data de 1174 (Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais), século esse em que, como é sabido, Portugal se constituiu enquanto nação. O facto de o Reino de Portugal t...

O Bom Soldado Švejk

O Soldado Švejk, ilustração de Josef Lada À semelhança de várias obras-primas da literatura do século XX, O Bom Soldado Švejk , de Jaroslav Hašek, é um livro sem final, incompleto. Dono de uma existência desregrada e atribulada, Jaroslav Hašek morre a 3 de Janeiro de 1923, sem nunca cumprir o projecto literário a que se tinha proposto, designadamente escrever seis volumes do seu magnum opus O Bom Soldado Švejk , tendo morrido pouco antes de completar o quarto volume.  A narrativa de O Bom Soldado Švejk pode ser dividida em dois momentos: no primeiro momento,  acompanhamos o soldado Švejk (lê-se xeveique) envolvido em mil e uma aventuras pelas ruas de Praga, na alvorada da Primeira Guerra Mundial; no segundo momento, Švejk parte para a frente de combate nos territórios da Europa Oriental, sendo esta a parte mais substancial do romance.       Quem é Švejk? Švejk é, fazendo uso das suas próprias palavras, um idiota: "Na tropa fui reavaliado...

Marine Vacth

Não me é difícil imaginar que se levássemos um papagaio ao cinema para assistir ao filme Jeune et Jolie , de François Ozon, a única coisa que ele talvez soubesse dizer sobre o filme seria repetir incansavelmente "Marine Vacth, Marine Vacth, Marine Vacth..." Não me atreveria a censurar o animal, pois também a mim, que não sou um papagaio (tenho testemunhas que o podem comprovar), me foi impossível resistir ao desejo de dizer e redizer Marine Vacth vezes sem conta.       No filme Jeune et Jolie , a actriz francesa Marine Vacth interpreta o papel de Isabelle, uma jovem de 17 anos que, por razões pouco claras, experimenta entrar no mundo da "alta prostituição". Ao longo do filme não é dada ao espectador uma explicação conclusiva sobre as motivações de Isabelle. Não é o dinheiro que a cativa, muito menos a procura de prazer. A certa altura, a própria afirma que "não sentia quase nada" durante os encontros sexuais em que participou. Para Isabelle,...

Poema dedicado aos esfaimados de popularidade

Pouco antes de morrer, em 2015, Herberto Helder terminou o seu último livro de poesia. Poemas Canhotos , assim foi intitulado o livro. Fica aqui o poema que achei mais interessante: "(entra um jovem sobraçando um maço de poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud) poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud, um jovem ávido cheio de cotovelos no meio da multidão - afastem-se afastem-se que eu quero entrar no filme, eu quero que me descubram, eu vim a correr de noite até aqui, eu sou o astro de que grandeza primeira, tragam depressa o rapaz das filmagens, eu quero ser o actor do terramoto - afaste-se, senhor, não é a sua vez - não me afasto que a minha vez é sempre, oh dêem qualquer coisa ao rapaz frenético: um relâmpago fotográfico em cheio no rosto, um calmante, um sôco, um bombom recheado maria gloriazinha, vai ser difícil vai ser difícil o rapaz não tem escrúpulos, tem uma fome que vem das...

A transformação do prazer

Au Lapin Agile, Pablo Picasso, 1905 Num livro intitulado A Descrição da Infelicidade , o escritor alemão W.G.Sebald escreveu esta observação curiosa:" [...] o flâneur burguês alegava ter consciência de que as suas aventuras amorosas uma vez por outra o fariam correr riscos de vida e saúde não despiciendos, de modo que, numa espécie de autopunição heróica, o prazer ombreia com a morte."       Para obter o prazer desejado, o flâneur burguês - essa figura emblemática do século XIX - estava disposto a colocar o seu destino ao dispor dos ventos insondáveis da sorte e do azar, tendo total consciência do que daí poderia advir. Este pequeno excerto de Sebald é muitíssimo significativo, pois permite-nos captar as dissemelhanças existentes entre as sociedades antigas e as sociedades actuais no modo como ambas experienciam o prazer. Tornou-se um lugar-comum caracterizar ideologicamente as sociedades actuais rotulando-as de hedonistas . A busca incessante pelo prazer é ...

Meridiano de Sangue

Em Meridiano de Sangue , Cormac McCarthy recorre a uma série de acontecimentos historicamente factuais para estruturar o enredo do romance que é, na opinião de Harold Bloom, "o maior feito estético da literatura americana contemporânea." No rescaldo da guerra travada entre os Estados Unidos da América e o México, durante os anos de 1846 a 1848, na qual os mexicanos cederam mais de um milhão de metros quadrados de territórios aos seus vizinhos omnívoros do norte, o ímpeto expansionista e aculturador americano adquiriu um vigor acrescido. Em termos concretos, esse vigor traduziu-se - como seria expectável - na perseguição e aniquilação dos povos indígenas e mexicanos. Logo na primeira página, Cormac McCarthy instala-nos desconfortavelmente no aposento das trevas: "Vede o menino. É pálido e magro, traz no corpo uma camisa andrajosa de fino linho. [...] A mãe, morta nesse dia, há catorze anos, incubou no próprio seio a criatura que havia de lhe pôr fim à vida. O pai nu...

Donald Trump

Trump and His Sharpie, do cartoonista John Cuneo, publicado na revista New Yorker (6-9-2019) Quando oiço dizer que as crianças estão cada vez mais altas e encorpadas, lembro-me imediatamente de Donald Trump. Donald Trump mede mais de um metro e oitenta e cinco, possui uma compleição física magnífica (devidamente acompanhada por uma saúde não menos magnífica) e, segundo o que me foi dado a entender nos últimos três anos, continua a ser uma criança. O leitor menos atento a estas trivialidades talvez duvide da justeza desta descrição, no entanto, é sempre um erro colocarmos em causa as evidências, ainda para mais quando se trata de evidências científicas. Num relatório médico sobre Trump, escrito pelo próprio Donald Trump, é afirmado que "a sua força física e resistência são extraordinárias." Mas já se sabe que nem sempre existe uma relação directa entre o desempenho físico e a saúde, daí a necessidade que o "Doutor" Trump terá sentido em eliminar quaisquer su...

O Processo

Franz Kafka Houve gestos-chave que marcaram o século XX. Por todos os pontos do globo, milhões de cidadãos anónimos foram intimados, através de uma banal mas terrível batida numa simples porta, a receberem os arautos do totalitarismo nas suas próprias casas. Ser acordado a meio da noite, ou de manhã, pelo som que acompanha o acto de bater subitamente numa porta é, provavelmente, um dos gestos que melhor definem não só o modus operandi dos regimes ditatoriais do século passado, mas também a essência do próprio século. E poucos terão captado a essência do século passado como Franz Kafka.        A página inaugural do romance O Processo - escrito entre 1914 e 1915 por Franz Kafka - pode ser entendida como um testemunho profético daquilo que, na opinião de Kafka, estava para eclodir no seio da civilização ocidental. " Alguém devia ter difamado Josef K., pois, certa manhã, sem que tivesse feito qualquer mal, foi preso. [...] Imediatamente se ouviu alguém bat...