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Mensagens

Force Majeure

Cena do filme Force Majeure Gostamos de afagar a nossa consciência imaginando que também nós adoptaríamos um comportamento heróico e nobre se fôssemos confrontados com uma situação limite, in extremis . Quando as forças elementares e primárias da vida e da morte entram em cena, quantos de nós teríamos o poder de agir segundo as leis do dever e da moral? Poucos, atrevo-me a dizer. Dos fracos não reza a história , afirmou solenemente Camões. De facto, são os fortes que figuram nos manuais de história, não são os fracos. Mas a verdade é que o olhar histórico será sempre incompleto se não se debruçar sobre os fracos. Por muito que nos custe, a realidade não é um bloco monocromático. Quando arriscamos ir mais longe, quando penetramos na obscuridade, é natural que aí encontremos indecências, vilezas e fraquezas inconfessáveis, visto que é também dessa mixórdia que nós somos feitos. Devo estas observações à circunstância de ter assistido recentemente ao filme Force Majeure (2014), do realizad...

Curiosidades etimológicas

Todas as palavras têm uma história. O ramo da Linguística que se dedica ao estudo das palavras chama-se Etimologia. Na língua galega, existe um termo que descreve com bastante expressividade a sensação que nos visita ao ouvirmos algumas histórias referentes à génese de certos vocábulos:  engaiolante . Engaiolante é um adjectivo que designa algo fascinante e sedutor, algo que nos aprisiona (engaiola) num halo de espanto. Vejamos, por exemplo, a origem da palavra galhofa .  O que é que nos vem à cabeça quando se fala em galhofa ? Esqueça, caro leitor, o facto de a pandemia ter suspendido a galhofa por um período temporal indeterminado. O termo galhofa faz-nos pensar automaticamente em espaços ruidosos e alegres, em festas repletas de riso e diversão. De facto, qualquer dicionário confirmará a justeza de tais pensamentos. Galhofa é sinónimo de riso, de alegria, de festa, de brincadeira. Então, de onde provém este termo que nos deixa tão bem dispostos só de ouvi-lo? Por muito ...

Considerações sobre a felicidade

Não há existência que não assente numa extensa série de logros. Alguns deles são-nos inculcados pela família, pela escola, pela religião ou pela comunidade em que estamos inseridos; outros são exclusivamente alimentados por nós mesmos, sem qualquer intervenção externa. Um dos logros mais importantes na estruturação da nossa realidade psíquica (e mesmo na realidade social que nos envolve) é a crença de que a felicidade é tanto mais intensa quanto maior for a sua relação com o esforço.       A teoria popularizada ao longo dos séculos tem sido esta: o sangue, suor e lágrimas do nosso esforço, dedicação ou trabalho - como lhe queiramos chamar - são peças fundamentais que nos permitem conhecer a verdadeira felicidade. Quantas vezes não ouvimos dizer que as "coisas só nos dão satisfação quando são conquistadas com esforço"? Inúmeras, creio eu. O problema é que nada disto é verdade. A minha posição vai no sentido contrário, isto é, o esforço não só não contribui minim...

John Coltrane

Cristianismo

No início do século XVIII, durante o reinado de Luís XIV, o Papa Clemente XI, na bula Unigenitus (de 1713), afirma explicitamente que a leitura da Bíblia não deve ser uma prática adoptada por qualquer pessoa. No entender do Papa Clemente XI, o conhecimento e o estudo dos textos bíblicos não era algo vantajoso para a maioria dos fiéis. Recorro a este pequeno apontamento histórico para ilustrar o grau de absurdo que pautou - e ainda pauta - o relacionamento entre os representantes da Igreja (falo exclusivamente da vertente católica) e os crentes. 300 anos volvidos desde a publicação da bula papel Unigenitus , já ninguém afirma que a Bíblia não deve ser lida, contudo, continua a existir no âmago da Igreja Católica uma incapacidade confrangedora de transmitir aos crentes - e até aos não crentes - o legado histórico-cultural do Cristianismo. Imaginemos o seguinte cenário: o padre da nossa paróquia, para obter uma noção aprofundada do nível cultural dos "seus" fiéis, decide...

Assim Nasceu uma Língua

  Assim Nasceu uma Língua , do linguista Fernando Venâncio, é um ensaio rigoroso e interessantíssimo sobre as origens da língua portuguesa. O propósito cimeiro desta obra assenta na tentativa de, citando o autor, " localizar, no tempo e nas formas, o que alguém chamou «o primeiro gemido» do idioma." Tudo é feito com esmero, humor e espírito científico, nunca cedendo à ortodoxia engajada - esse tumor que tantas vezes impede que participemos num debate sério, coerente, racional e imparcial. Como manda a tradição, vou começar pelo princípio, tentando resumir os principais elementos constitutivos do pensamento de Fernando Venâncio.  No entender de Fernando Venâncio, existe uma coincidência bastante infeliz na história de Portugal. Segundo os dados existentes, o primeiro documento redigido em língua portuguesa data de 1174 (Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais), século esse em que, como é sabido, Portugal se constituiu enquanto nação. O facto de o Reino de Portugal t...

O Bom Soldado Švejk

O Soldado Švejk, ilustração de Josef Lada À semelhança de várias obras-primas da literatura do século XX, O Bom Soldado Švejk , de Jaroslav Hašek, é um livro sem final, incompleto. Dono de uma existência desregrada e atribulada, Jaroslav Hašek morre a 3 de Janeiro de 1923, sem nunca cumprir o projecto literário a que se tinha proposto, designadamente escrever seis volumes do seu magnum opus O Bom Soldado Švejk , tendo morrido pouco antes de completar o quarto volume.  A narrativa de O Bom Soldado Švejk pode ser dividida em dois momentos: no primeiro momento,  acompanhamos o soldado Švejk (lê-se xeveique) envolvido em mil e uma aventuras pelas ruas de Praga, na alvorada da Primeira Guerra Mundial; no segundo momento, Švejk parte para a frente de combate nos territórios da Europa Oriental, sendo esta a parte mais substancial do romance.       Quem é Švejk? Švejk é, fazendo uso das suas próprias palavras, um idiota: "Na tropa fui reavaliado...

Marine Vacth

Não me é difícil imaginar que se levássemos um papagaio ao cinema para assistir ao filme Jeune et Jolie , de François Ozon, a única coisa que ele talvez soubesse dizer sobre o filme seria repetir incansavelmente "Marine Vacth, Marine Vacth, Marine Vacth..." Não me atreveria a censurar o animal, pois também a mim, que não sou um papagaio (tenho testemunhas que o podem comprovar), me foi impossível resistir ao desejo de dizer e redizer Marine Vacth vezes sem conta.       No filme Jeune et Jolie , a actriz francesa Marine Vacth interpreta o papel de Isabelle, uma jovem de 17 anos que, por razões pouco claras, experimenta entrar no mundo da "alta prostituição". Ao longo do filme não é dada ao espectador uma explicação conclusiva sobre as motivações de Isabelle. Não é o dinheiro que a cativa, muito menos a procura de prazer. A certa altura, a própria afirma que "não sentia quase nada" durante os encontros sexuais em que participou. Para Isabelle,...

Poema dedicado aos esfaimados de popularidade

Pouco antes de morrer, em 2015, Herberto Helder terminou o seu último livro de poesia. Poemas Canhotos , assim foi intitulado o livro. Fica aqui o poema que achei mais interessante: "(entra um jovem sobraçando um maço de poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud) poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud, um jovem ávido cheio de cotovelos no meio da multidão - afastem-se afastem-se que eu quero entrar no filme, eu quero que me descubram, eu vim a correr de noite até aqui, eu sou o astro de que grandeza primeira, tragam depressa o rapaz das filmagens, eu quero ser o actor do terramoto - afaste-se, senhor, não é a sua vez - não me afasto que a minha vez é sempre, oh dêem qualquer coisa ao rapaz frenético: um relâmpago fotográfico em cheio no rosto, um calmante, um sôco, um bombom recheado maria gloriazinha, vai ser difícil vai ser difícil o rapaz não tem escrúpulos, tem uma fome que vem das...

A transformação do prazer

Au Lapin Agile, Pablo Picasso, 1905 Num livro intitulado A Descrição da Infelicidade , o escritor alemão W.G.Sebald escreveu esta observação curiosa:" [...] o flâneur burguês alegava ter consciência de que as suas aventuras amorosas uma vez por outra o fariam correr riscos de vida e saúde não despiciendos, de modo que, numa espécie de autopunição heróica, o prazer ombreia com a morte."       Para obter o prazer desejado, o flâneur burguês - essa figura emblemática do século XIX - estava disposto a colocar o seu destino ao dispor dos ventos insondáveis da sorte e do azar, tendo total consciência do que daí poderia advir. Este pequeno excerto de Sebald é muitíssimo significativo, pois permite-nos captar as dissemelhanças existentes entre as sociedades antigas e as sociedades actuais no modo como ambas experienciam o prazer. Tornou-se um lugar-comum caracterizar ideologicamente as sociedades actuais rotulando-as de hedonistas . A busca incessante pelo prazer é ...