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Mensagens

A era da vingança

Alberto Manguel No passado dia 22 de Agosto de 2020, o semanário Expresso publicou um ensaio do professor e escritor Alberto Manguel que ilustra, de forma inteligente, ponderada e sucinta, algumas das inquietações mais prementes da nossa época. Segundo o canadiano, cada época histórica possui um conjunto de tendências específicas que nos ajudam a caracterizá-la, a defini-la relativamente a outras que a precederam. Tal como nos ensinou o célebre historiador britânico Eric Hobsbawm, houve a era das revoluções, houve a era dos impérios, houve a era dos extremos; agora, no novo milénio, o sentimento predominante é o de que vivemos na era da vingança . É esta a tese principal do ensaio de Alberto Manguel.  Como sabemos, a História é um manancial de injustiças e de crueldades inomináveis. Hegel chegou ao ponto de afirmar que "as épocas felizes são páginas em branco no livro da História". Assim é. No entanto, há uma diferença significativa entre as vítimas d...

Vilarinho das Furnas

Nas vésperas do afogamento da aldeia de Vilarinho das Furnas, o cineasta português António Campos delegou a si mesmo a nobre tarefa de capturar um mundo condenado ao desaparecimento, tendo daí resultado a elaboração do documentário Vilarinho das Furnas . Quando António Campos chegou a Vilarinho das Furnas, em 1969, o cutelo já havia sido colocado no pescoço dos habitantes da aldeia, isto é, já todos sabiam que a construção da barragem de Vilarinho das Furnas iria ser realizada. Este facto outorga ao documentário o estatuto de "crónica de uma morte anunciada", pois é efectivamente a designação acertada para descrever o documentário de António Campos. Ao longo de doze meses passados no coração da aldeia, António Campos pôde lançar sobre ela o derradeiro olhar sobre os costumes, crenças e tradições dos seus habitantes, bem como dissecar o peculiar modo de funcionamento do regime agro-pastoril que por lá vigorava.  Situada no sopé da serra Amarela, mas já com o "dorso" ...

Senhor, livrai-nos dos bons samaritanos

"Há pessoas que têm pena de mim por estar a ler. 'Coitado', pensam, 'está a ler porque está sozinho'. Vêm fazer-me companhia, orgulhosos de serem bons samaritanos, salvando-me do triste destino de ler. Mesmo gritando para que desandem dali e me deixem em paz não se comovem - e não arredam pé. Alguém pôs-lhes nas cabeças que os livros só servem para estudar [...]." [Excerto de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso]

Force Majeure

Cena do filme Force Majeure Gostamos de afagar a nossa consciência imaginando que também nós adoptaríamos um comportamento heróico e nobre se fôssemos confrontados com uma situação limite, in extremis . Quando as forças elementares e primárias da vida e da morte entram em cena, quantos de nós teríamos o poder de agir segundo as leis do dever e da moral? Poucos, atrevo-me a dizer. Dos fracos não reza a história , afirmou solenemente Camões. De facto, são os fortes que figuram nos manuais de história, não são os fracos. Mas a verdade é que o olhar histórico será sempre incompleto se não se debruçar sobre os fracos. Por muito que nos custe, a realidade não é um bloco monocromático. Quando arriscamos ir mais longe, quando penetramos na obscuridade, é natural que aí encontremos indecências, vilezas e fraquezas inconfessáveis, visto que é também dessa mixórdia que nós somos feitos. Devo estas observações à circunstância de ter assistido recentemente ao filme Force Majeure (2014), do realizad...

Curiosidades etimológicas

Todas as palavras têm uma história. O ramo da Linguística que se dedica ao estudo das palavras chama-se Etimologia. Na língua galega, existe um termo que descreve com bastante expressividade a sensação que nos visita ao ouvirmos algumas histórias referentes à génese de certos vocábulos:  engaiolante . Engaiolante é um adjectivo que designa algo fascinante e sedutor, algo que nos aprisiona (engaiola) num halo de espanto. Vejamos, por exemplo, a origem da palavra galhofa .  O que é que nos vem à cabeça quando se fala em galhofa ? Esqueça, caro leitor, o facto de a pandemia ter suspendido a galhofa por um período temporal indeterminado. O termo galhofa faz-nos pensar automaticamente em espaços ruidosos e alegres, em festas repletas de riso e diversão. De facto, qualquer dicionário confirmará a justeza de tais pensamentos. Galhofa é sinónimo de riso, de alegria, de festa, de brincadeira. Então, de onde provém este termo que nos deixa tão bem dispostos só de ouvi-lo? Por muito ...

Considerações sobre a felicidade

Não há existência que não assente numa extensa série de logros. Alguns deles são-nos inculcados pela família, pela escola, pela religião ou pela comunidade em que estamos inseridos; outros são exclusivamente alimentados por nós mesmos, sem qualquer intervenção externa. Um dos logros mais importantes na estruturação da nossa realidade psíquica (e mesmo na realidade social que nos envolve) é a crença de que a felicidade é tanto mais intensa quanto maior for a sua relação com o esforço.       A teoria popularizada ao longo dos séculos tem sido esta: o sangue, suor e lágrimas do nosso esforço, dedicação ou trabalho - como lhe queiramos chamar - são peças fundamentais que nos permitem conhecer a verdadeira felicidade. Quantas vezes não ouvimos dizer que as "coisas só nos dão satisfação quando são conquistadas com esforço"? Inúmeras, creio eu. O problema é que nada disto é verdade. A minha posição vai no sentido contrário, isto é, o esforço não só não contribui minim...

John Coltrane

Cristianismo

No início do século XVIII, durante o reinado de Luís XIV, o Papa Clemente XI, na bula Unigenitus (de 1713), afirma explicitamente que a leitura da Bíblia não deve ser uma prática adoptada por qualquer pessoa. No entender do Papa Clemente XI, o conhecimento e o estudo dos textos bíblicos não era algo vantajoso para a maioria dos fiéis. Recorro a este pequeno apontamento histórico para ilustrar o grau de absurdo que pautou - e ainda pauta - o relacionamento entre os representantes da Igreja (falo exclusivamente da vertente católica) e os crentes. 300 anos volvidos desde a publicação da bula papel Unigenitus , já ninguém afirma que a Bíblia não deve ser lida, contudo, continua a existir no âmago da Igreja Católica uma incapacidade confrangedora de transmitir aos crentes - e até aos não crentes - o legado histórico-cultural do Cristianismo. Imaginemos o seguinte cenário: o padre da nossa paróquia, para obter uma noção aprofundada do nível cultural dos "seus" fiéis, decide...

Assim Nasceu uma Língua

  Assim Nasceu uma Língua , do linguista Fernando Venâncio, é um ensaio rigoroso e interessantíssimo sobre as origens da língua portuguesa. O propósito cimeiro desta obra assenta na tentativa de, citando o autor, " localizar, no tempo e nas formas, o que alguém chamou «o primeiro gemido» do idioma." Tudo é feito com esmero, humor e espírito científico, nunca cedendo à ortodoxia engajada - esse tumor que tantas vezes impede que participemos num debate sério, coerente, racional e imparcial. Como manda a tradição, vou começar pelo princípio, tentando resumir os principais elementos constitutivos do pensamento de Fernando Venâncio.  No entender de Fernando Venâncio, existe uma coincidência bastante infeliz na história de Portugal. Segundo os dados existentes, o primeiro documento redigido em língua portuguesa data de 1174 (Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais), século esse em que, como é sabido, Portugal se constituiu enquanto nação. O facto de o Reino de Portugal t...

O Bom Soldado Švejk

O Soldado Švejk, ilustração de Josef Lada À semelhança de várias obras-primas da literatura do século XX, O Bom Soldado Švejk , de Jaroslav Hašek, é um livro sem final, incompleto. Dono de uma existência desregrada e atribulada, Jaroslav Hašek morre a 3 de Janeiro de 1923, sem nunca cumprir o projecto literário a que se tinha proposto, designadamente escrever seis volumes do seu magnum opus O Bom Soldado Švejk , tendo morrido pouco antes de completar o quarto volume.  A narrativa de O Bom Soldado Švejk pode ser dividida em dois momentos: no primeiro momento,  acompanhamos o soldado Švejk (lê-se xeveique) envolvido em mil e uma aventuras pelas ruas de Praga, na alvorada da Primeira Guerra Mundial; no segundo momento, Švejk parte para a frente de combate nos territórios da Europa Oriental, sendo esta a parte mais substancial do romance.       Quem é Švejk? Švejk é, fazendo uso das suas próprias palavras, um idiota: "Na tropa fui reavaliado...